terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Literatura: para quê?

Distinguir o que pode ser considerado cânone literário daquilo que é visto como
pertencente ao senso comum é determinar com qual grupo social o indivíduo se
identifica, ou seja, a partir do gosto literário se pressupõe o elemento humano,
se oriundo de classes sociais desfavorecidas e portanto, leigas, ou se
pertencente à elite intelectualizada e detentora do saber, do bom gosto e
refinamento. "O ensino de literatura, muitas vezes, é associado à tarefa de
difundir o gosto pela literatura erudita", mas o que é literatura? Esta palavra
vem do latim "litteris" que significa "Letras" e será considerado literário
quando, usando a definição de Aristóteles, provoca catarse, a emoção no leitor.
Partindo-se deste pressuposto o que é literário para alguns não o será para uma
grande maioria, mas se o texto tem a função de despertar no seu leitor a emoção,
como ensinar literatura aos alunos? É comum entre a classe docente dizer que
a bagagem cultural dos alunos é irrelevante e desprezível e nesta visão se volta
o ensino de literatura à "organização dos conteúdos apoiada na historiografia
literária, privilegiando o enfoque cronológico de movimentos, gerações e
autores, com suas respectivas obras de destaque"(CEREJA, 2005, p.12). E o que se
verifica ao final do Curso de Ensino Médio são alunos que não desenvolveram
competência leitora e discernimento não só dos gêneros e tipologias literárias,
bem como a aplicabilidade na sua vida social dos conhecimentos obtidos nesta
concepção conteudista e enciclopédica. Se faz necessário a desmistificação
de conceitos preconcebidos para um efetivo conhecimento e postura crítica do que
é bom e ruim. Se a cultura de peças teatrais não se faz presente na vida da
maioria da população em muito se deriva ao fator econômico do que ao gosto
pessoal. Pessoas que mal conseguem o ganho para subsistência não têm poder
aquisitivo para a compra de um ingresso para assistir à espetáculos culturais,
isto não significa, entretanto, que se lhes for apresentada esta manifestação
artística não produzirá nas mesmas a tão sonhada catarse aristotélica, daí ser
essencial uma redefinição do objeto de estudo nas aulas de Língua Portuguesa. Um
trabalho com os diferentes gêneros do discurso contrapondo-se ao estudo dos
tipos de texto é muito mais produtivo caso o intuito seja a formação de leitores
competentes e voltados para a prática de uma leitura crítica e adequada ao meio
social, isto é, não se ensina literatura para permitir a secularização de uma
camada social se sobrepondo a outra, mas para permitir ao indivíduo adquirir
competência leitora e discernir por si mesmo o que lhe é encantador ou não.
Um detalhe que não podemos esquecer quanto ao ensino de literatura, segundo
Cereja, é que as escolas têm caracterizado suas aulas como arremedo dantesco dos
cursinhos pré-vestibulares. O docente canta, dança, brinca e faz um apanhado
geral das obras e autores contextualizando-os na época histórica e discorrendo
sobre as características literárias da escola literária e isto nos remete a um
questionamento: os egressos do Ensino Médio adquirem a tão almejada competência
leitora desta forma? Seria notório que em vez de apenas discorrer sobre o
assunto e caber ao aluno uma postura passiva diante das informações que lhe são
passadas, toda a multiplicidade de textos literários, canônicos, populares,
discursivos e orais fossem trabalhados em sala para que instrumentalizasse e
permitisse ao alunado saber a aplicabilidade deste conhecimento que lhe será
válido para a vida.




Referências: CEREJA, Ensino de literatura: uma
proposta dialógica para o trabalho com literatura. São Paulo: Atual, 2005
ROJO, R. Literatura, leitura e ensino: Tópico 3: Literatura: espaço da
multiplicidade Disponível em:
https://autoria.ggte.unicamp.br/unicamp-redefor/pages/public/main.jsf?hash=TkPauJzT5YaTeMUcBHk0eQ%3D%3D
Acesso em: 29/11/2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário